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Belo Horizonte (soneto desarrumado)

– Dagmar Braga –

minha cidade é tanto a mesma falta

como outro lado

que sobra      e se esboroa

ardência      lusco-fusco     desenlace

rumor de carnes

lascas

sóis

degredo

 

minha cidade exala amor e ódio

é a fome que me espreita

o grito insano

o templo da poesia       da beleza

fascínio      estrela      sede

morro

pedra

 

minha cidade mora em meu desejo

serpeia céus e vales

surpreende

seduz

volteia

inflama e entontece

 

abraço       exílio      legião voraz

rito e castigo

comunhão

serpente

expulsa-me do sonho      (e se faz ninho)

 

Poema publicado no livro Belo Horizonte – 24 autores, org. José Mauro da Costa, Mazza Edições, 2012, distribuído na 10ª edição do Livro de Graça na Praça.

 

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Desejo

Dagmar Braga –

fosse tua essa mão
tecendo o véu da noite

fosse tua essa voz
a urdir manhãs de maio

fosse teu esse cheiro
de chuva temporã

a vida espetalava de felicidade

 

Do livro: Geometria da Paixão (Anome Livros)

 

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Parei de fumar

— Dagmar Braga —

Sempre cuidei bem dela. Tenho certeza que vão falar que eu não devia ter me dedicado tanto assim, que eu não precisava ter feito isso ou aquilo. Como se eu tivesse, algum dia, feito alguma coisa por precisão. Era só por amor. Ela dependia de mim e eu sempre estava lá. Isso não é importante?  Ela era linda, cheia de vida, mas inocente demais. Pois bem. Ela pedia atenção, o tempo todo. E eu dava. Eu falava cuidado!, mas quem disse que ela tinha juízo? Não, não é isso. É que ela era tão inocente que, se deixasse, voava. Pegava carona em qualquer palavra. E se perdia. Por isso eu fiquei sempre do lado dela, só ajudando a manter os pés no chão. E dando carinho. Muito carinho. O que mais eu podia fazer? O mundo é muito traiçoeiro. Está cheio de gente ruim, pronta pra dar o bote. Só quem dá o pão pode dar o ensino, não é mesmo? E eu fui ensinando, explicando, repetindo. Às vezes eu penso até que ela era meio burrinha. Não entendia que eu fazia tudo pelo bem dela. Mas eu continuei firme. Cuidando sempre para que ela ficasse bem. Um dia, ela reclamou porque tinha sumido um dinheirinho que o pai deu de presente. Mas pra que ela ia ter que se preocupar com dinheiro? Ela não entendeu, quando eu disse isso. Nem depois, quando eu mandei que ela parasse de trabalhar. Ficar cansada à toa, pra quê?  Pra  ficar implicando cada vez mais com a birita, no fim do dia? Que é que tem um pobre mortal gostar de tomar umas de vez em quando? Aí ela resolveu que ia estudar, e eu bem que avisei que não ia dar certo. Ainda por cima, queria que eu aceitasse deitar sozinho, enquanto ela acabava de ler um livro. Palavra… sempre pegando carona em qualquer palavra… Tomei o livro, chamei ela pra cozinha (dessas cozinhas apertadinhas, sabe? querendo ou não, nós dois bem juntinho). Apertei meu corpo contra o dela, rente à parede. Acendi um Minister, ela me encarando em silêncio, com uma pergunta pendurada no olho estatelado. Puxei a fumaça e comecei a desenhar pequenos círculos que iam subindo e desaparecendo devagar. Seus olhos verdes, muito verdes, brilhavam entre as baforadas e foi aí que eu entendi o que ela me pedia. Segurei seu rosto com firmeza, mantendo bem aberto aquele olho agateado, e esmaguei nele, lentamente, a brasa do último cigarro que eu fumei na minha vida.

 

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