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À La Carte

– Ronaldo Guimarães –

Quando minha mulher, depois de trinta anos de casada, disse que ia me abandonar, dei um longo bocejo de enfado e repeti a canção: “se você crê em Deus, erga as mãos para os céus e agradeça… minha amiga, se ajeite comigo e dê graças a Deus…”

Fui cruel: “você está velha demais para tanta querência”. Larguei a poesia e arrematei, com deslealdade: “vai se foder”.

Ela, que sempre me obedeceu nesses anos todos, foi. Com um cara vinte anos mais moço. E francês.

Como em Minas não tem navios, fiquei a ver barcos. Eu, que a conheci na minha infância, sempre fiz barcos de papel, com o nome dela desenhado na popa e colocava na enxurrada, depois de tempestades e acompanhava o balançar, doidinho de amor pelo barco e por ela, depois de não sei quantos anos, me estrepei. Quem manda achar que toda mulher vai te amar por todos os séculos?

O pior de tudo é que o tal do francês era danado de bonito. Bonito e vinte anos mais novo do que a gente. O Alain Delon atravessou o Atlântico só pra me sacanear. Conheci-o por acaso, só de longe. Depois que minha mulher deu o pira, fui tomar um chopinho no “Sallon”, bar em frente ao “Palladium”, no centro da cidade. Mostra de filme francês.

Meu Deus, como é bom tomar um chopinho sozinho, depois de tantos anos enroscado numa mulher. Sem preocupação, sem se preocupar com ponteirinho, nem ponteirão.

Depois do oitavo chope, e com colarinho, por favor, vislumbrei minha digníssima esposa e seu amante francês adentrando na melhor sala de exibição da cidade. A Mostra começou com “Um homem e uma mulher”, com direito a trilha sonora do Vinícius, só pra chatear.

Pressenti que perdi minha mulher naquele filme, naquela mão dada e naquele saco de pipocas. Com muito sal, sei que ela gosta de pipoca salgada. Senti, naquele momento, que insensatez e mulher eram irmãs gêmeas.

O sacana, além de tomar a Bastilha, tomou minha mulher. O que mais me incomodou que não era só uma trepadinha qualquer. Iam ao cinema, viam filmes de amor e de Claude Lelouch. Entrelaçavam dedos, emocionados.

Imaginei, no nono chope, com dois dedos de colarinho, por favor, ela no escuro do cinema, emocionada com o filme, o mesmo que vimos trinta anos atrás. Alisando os cabelos compridos e lisos do francês. Até perdoei a traição, cabelos lisos e sedosos devem ser bons de alisar. Sou brasileiro, cabelo pixaim, ruim de alisar, deve machucar os dedos.

De repente, a angústia bateu forte. Perdi minha mulher nesse 1998, ano ruim de se lembrar, inverno seco, agosto ardido, dois meses depois de perdermos a Copa para os franceses, com um gol de um calvo, que mais parecia um seminarista.

O meu amor e seu amante francês numa Mostra de Claude Lelouch. Por acaso a chamei de “meu amor”? Engraçado, virou meu amor por conta da perda. Vão enfarar de ver tantos filmes. De “Um homem e uma mulher”, passando por “Retratos da vida” até “Toda uma vida”. Entraram numa matinée e vão sair numa soirée. E eu que vivi toda uma vida com ela, fora dos planos e me embebedando.

Garçom, tem uma comidinha francesa aí? Qualquer coisa, tipo croissant, souflé, fondue, champignon? E pra beber, um vinho da região de Champagne, safra 1948. Não tinha. Ele explicou que ali era um boteco, não um restaurant. Então me traz um linguicinha frita com mandioca e outro chope na pressão, sou brasileiro mesmo, cabelo ruim, cor de cabrito, tá de bom tamanho.

Bar esfumaçado, estilo filme noir. Nunca fumei, hálito de hortelã não me valeu de nada, mulher deve gostar de cheiro de nicotina e alcatrão. Cigarro é um charme, franceses adoram equilibrar um no canto da boca. Filei um do garçom, só para parecer com um francês. Quem sabe assim a veterana voltasse. Tossi na primeira tragada. Engasguei. Não dava pra coisa mesmo, melhor tentar outra alternativa. Aprender a tocar um instrumento, quem sabe acordeon, gosto da sonoridade, do som melancólico. Deixa pra lá, depois vejo isso.

Vai lá, sua Simone de Beauvoir, vai lá, roçar no seu Sartre. Se quiser saber, não sou nenhum poeta existencialista, dividir mulher, nem que a vaca tussa, sou mineiro, duro de quebrar, da montanha, rupestre, não sou dado a esses modernismos.

Não sou belo como o Alain Delon dela, mas tenho meu charme. Se você não sabe Maria, fique sabendo, sou feio, mas faço sucesso com as mulheres. Jean-Paul Belmondo das montanhas de Minas.

Enfim, findo os filmes. Eu e minha perplexidade olhamos o casal sair do cinema. Largaram as mãos e se abraçaram. Abraçadinhos, atravessaram a rua e entraram no “Saloon”. Me escondi na última mesa ao fundo. A vontade que tive era fazer um estardalhaço, partir pra briga, dizer pra ela que francês não toma banho, mas me contive. O cheiro do “paco rabanne” da pele clara do artista aliviou o azedume do cheiro de chope tirado na pressão, azeitonas e queijo canastra e me desautorizou a ser infame.

Chamei o garçom, ao canto. Se naquele boteco não saboreavam comida francesa, pelo menos havia vitrola. E havia Gilbert Bécaud, nosso cantor predileto. Instruí ao garçom, nossa canção que nos embalou em festas e saraus dos anos setenta: Et maintenant. Começou a tocar. E agora? E agora, Maria, qual sua reação. Ela não reagiu, apenas um muxoxo e a conta, garçom. Pourquoi, pour qui? Pour qui, porquoi?

Antes deles saírem, ela me surpreendeu ao fundo do bar. Sem vexame, recompus a gravata, precisava manter a calma, não perder a razão, requinte nessas horas é sempre de bom alvitre, bom tom, quem sabe, se ela resolvesse voltar, lembraria da minha fidalguia. Em última instância, até apelaria para a frase marota: quero envelhecer junto de você. Melhor não, já envelhecemos juntos, ela quer é rejuvenescer, seu idiota!

Na verdade, acovardado, fiquei só na espreita. Ele era vinte anos mais jovem e dez centímetros mais alto. Saí em desvantagem. Duque de Caxias chamar pra briga Napoleão Bonaparte era demais para meus braços esquálidos. Caxias só ganhou uma guerrinha, num continente ruim de briga, Bonaparte ganhou um punhado, até a minha mulher. E era empertigado, ereto, jamais perderia uma guerra naquela posição.

Na saída, meneei a cabeça, ela retribuiu o meneio e disse com sotaque de moradora do bairro Santa Efigênia- via Euclásio: Au Revoir.

Revoaram do “Copo sujo”, subiram a Rio de Janeiro e entraram no Mc’Donalds. Aí sim, estarreci. Filme de ficção era aquilo ali, sem tirar nem pôr. Atônito. Francês comendo comida americana e pingando molho inglês. Só faltava sua camisa ficar manchada de mostarda e catchup.

Aí me deu um frouxo de riso, sem jeito de estagnar. Abracei o poste e não consegui me segurar.  Aquele francês era de araque, falsificado, um farsante, bom pras nêgas dele, pra minha nêga não. Já, já ela está de volta, conheço meu gado, era só esperar.  Desci a Rio de Janeiro, feliz da vida, gravata frouxa, o maior de todos e o indicador segurando o paletó, ao lado da saboneteira, chutando tampinha de cerveja e cantando “Joana francesa” do Chico. Apaziguado.

Vislumbrei uma lua crescente, traduzida em unha, pregada no noroeste do céu. Nem poetizei a cena. Nem que toda Aurora Boreal pintasse nos trópicos, me faria erguer o pescoço e achasse a cena esplêndida. Poesia, naquela hora, passava ao largo.  Pensei na Adélia: “De vez em quando Deus me tira a poesia. Olho pedra, vejo pedra mesmo”. Só sei que já, já ela estará de volta. Quando descobrir que seu amante francês é um impostor, cairá em meus braços. Esquecerá férias em Paris e voltará para suas férias em tupi-guarani: Iriri, Piúma, Guarapari e adjacências. Questão de tempo.

Questão de tempo.  E o tempo cometeu a indelicadeza, a descortesia de passar. Já se passaram três Copas do mundo, mais de quatro mil dias e ela ainda não voltou

Acho que tenho que me conformar, ela encontrou sua alegria. Tateio, com dedos indecisos, a minha. De tanto praticar esportes na juventude, aprendi a perder. Sou bom perdedor.

Tenho feito poucas coisas na vida. Esperar é uma delas, entrar num curso de francês, outra. Ne me quitte pas é minha música e frase preferida. E ela nem se dá conta do meu abandono.

Nas agudas angústias, sem afetos e sem afagos, penso na falta de filho ou de neto pra me afagar. Filho que não quis e que pensava que não me faria falta.

Ando tendo sonhos eróticos com rendez-vous, fecho-eclair, abat-jour, bidet, essas coisas esquisitas e afrancesadas.

Sei não, acho que preciso me cuidar mais, olhar pro meu umbigo. Deslizar bunda em divã e procurar um Lacan que me dê atenção.

 

 

 

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Memórias de um escritor diletante

 

– Ronaldo Guimarães –

 

Hoje estou particularmente feliz. Meus filhos, seguramente, ficarão mais ainda. Eles, que me enchem a paciência e acham que nasci no século retrasado, anacrônico, só porque escrevo em papel sem pauta e a lápis, ficarão orgulhosos de mim. Enfim, num site. E muito bem acompanhado. Orgulho-me de participar deste grupo de craques das palavras. Incumbiram-me de um texto .Mas, nessa estreia na nova ferramenta, me meti em confusão. Falar sobre o quê? A queda dos ministros? a queda do dólar? a morte da bezerra? Não sou ensaísta, não saberia discorrer sobre os temas.
Então, me desculpem a indelicadeza, a descortesia ,mas como sou um dos menos conhecidos no Coletivo 21, falarei sobre mim mesmo. Mais tarde, mandarei umas croniquetes.
Sou Ronaldo Guimarães, cinquenta anos e lá vai fumaça e como disse um amigo educador, atleticano por sina, mineiro por sorte, e persistente. Há quarenta anos que não vejo meu time ser campeão nacional e nem por isso sou infeliz.
Comecei neste ofício de colocar uma palavrinha na frente da outra bem cedo. Foi num concurso pra entrar na escola no antigo ginásio. Hoje seria a quinta série. Um verdadeiro vestibular. Em matemática, me estrepei,  um fiasco, mas na  língua pátria me segurei e safei. Primeiro colocado em redação. O mote, lembro até hoje, até que ajudou: “E todos respiraram aliviados”. Imaginei o meu time metendo um gol no último minuto. Naquela época, meu time me deixava respirar aliviado.
Neste mesmo ginásio encontrei amigos que gostavam de escrever. Fazíamos, entre nós, concursos de crônicas, valendo coxinha azeda e laranjada morna da cantina da escola. Ganhei alguns, perdi outros. Meus amigos, que são queridos até hoje, enveredaram por outros caminhos e profissões. Estão desperdiçados. Precisando ganhar a vida, larguei as letras e fui caçar rumo. Trabalhar. Literatura não dá camisa nem põe comida na mesa.
Só voltei a escrever 30 anos depois, na virada do século, no enterro de minha mãe e pelo olhar abstrato do coveiro. Depois daquele olhar, que nunca vi tão distante, me deu uma catarse e uma vontade danada de arrear a caneta novamente no papel. Nunca mais parei. Cinco livros publicados, uma peça escrita e não encenada, dois livros por publicar e participação em algumas coletâneas. Olha aí a D. Cotinha me apresentando, novamente, aos sujeitos, verbos e adjuntos adnominais. Falar nisso, ela estava “mais para adjetivo do que substantivo”.
Ninguém acredita,  mas nasci num belo e encantado parque municipal, no centro de Belo Horizonte. Majestoso. Não é pra acreditar mesmo, mas é a pura verdade. Nasci dentro de uma escola (meu pai zelava por ela) e a parteira, que nunca vou saber o nome e que deve ser daquelas negras sestrosas e lustrosas, de queixo duro e mãos fortes, me trouxe para o mundo.
Ela me trouxe dentro de uma escola, engatinhei dentro de uma escola, dei os primeiros passos e estou até hoje dentro de uma escola. Vai gostar de sofrer assim lá longe.
Outra coisa que ninguém acredita é que sou professor de educação física. Apesar de ser pedagogo e mestre em psicopedagogia, a pecha de atleta cinquentão incomoda as pessoas. Toda palestra que dou o tema recorrente é: “Educação Física x Literatura- O que tem a ver?” As pessoas não entendem que há literatura em toda parte. Desde conviver com alunos carentes, com calções rasgados e pé no chão até uma resolução de equação de 2° grau. Meus filhos têm mais orgulho de mim por ter sido convocado para a seleção mineira de futebol de salão do que por tentar escrever continhos de réis. Sou ambíguo: gosto da algazarra das quadras e do silêncio das bibliotecas.
Ambiguidade é meu nome e sobrenome. Gosto de colo quente e cerveja gelada; verão e inverno (outono e primavera, nem tanto); pipoca salgada e doce “amor em pedaços”(que povoou minha infância); estrada de chão e asfaltada; vagareza de barquinho de papel na enxurrada, depois de tempestades e ligeireza de avião supersônico; sol e lua; tênis e futebol; pau e pedra; jaca e jabuticaba.
Morenas, louras e ruivas, dependendo do tom da tintura que minha mulher usa. Gosto também de fazer média com minha mulher.
Não gosto de poucas coisas: domingo à noitinha; segunda-feira de manhãzinha, pé atrás, pé de vento, mau humor e mau-olhado.
Sou quase feliz.
Ronaldo Guimarães.

 

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